Quero me libertar destas amarradas.
Agora, nada disso mais me interessa.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
domingo, 4 de abril de 2010
Se tudo der errado
Não me encaixo, não sei se me acho neste lamaçal. A cada partida, cada despedida me perco cada vez mais. Me esparramo, me espremo em desespero. Ando por rumos dispersos, inquieto, procurando o que, eu não sei. Em busca da solução encontro um rancho e um riacho. Então, penso mais. Olho à frente uma avenida. Não. A vida ficaria sem rima demais longe dessa capital.
O medo de não estar no mar
E lá estava ele. Azul, gigante à minha frente. Missão: dar o primeiro passo. O barulho, lembro agora, era suave, gostoso como o aconchego da minha mãe. Talvez por isso mesmo tomei coragem para dar o primeiro salto na primeira ondinha da manhã. O raio de sol me envolvia fraquinho, com uma leve brisa de outono. A força com que minha mãe segurava a minha mãe era o sinal de que eu poderia aventurar-me neste adorado desconhecido.
Pés, pernas, braços. Este foi o caminho da água ainda gelada. Acostumada com banhos morninhos, estranhei um pouco, mas só um pouco. Logo me acostumei com o arrepio nas costas. Achei engraçado sentir minha calcinha de babadinhos pesada. Achei que pela emoção tinha feito alguma coisa errada, mas não, a areia, tão fininha, entrava assim, sem permissão mesmo. No meio de uma onda, minha mãe sumiu e eu senti um gosto estranho na boca. Como quem salva um tesouro, minha mãe me puxou pela mão, fazendo-me tossir a água engolida. O choro incontrolável foi o sinal de que a nova lição bastava por aquele dia. Chorei ainda mais ao ver o mar ficar longe, longe. Mas não fazia mal. O importante é que eu tomaria muitos e muitos outros banhos como aquele e que este gigante maravilhoso seria meu parceiro, para sempre.
Pés, pernas, braços. Este foi o caminho da água ainda gelada. Acostumada com banhos morninhos, estranhei um pouco, mas só um pouco. Logo me acostumei com o arrepio nas costas. Achei engraçado sentir minha calcinha de babadinhos pesada. Achei que pela emoção tinha feito alguma coisa errada, mas não, a areia, tão fininha, entrava assim, sem permissão mesmo. No meio de uma onda, minha mãe sumiu e eu senti um gosto estranho na boca. Como quem salva um tesouro, minha mãe me puxou pela mão, fazendo-me tossir a água engolida. O choro incontrolável foi o sinal de que a nova lição bastava por aquele dia. Chorei ainda mais ao ver o mar ficar longe, longe. Mas não fazia mal. O importante é que eu tomaria muitos e muitos outros banhos como aquele e que este gigante maravilhoso seria meu parceiro, para sempre.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Retrato de uma perda
Hoje quero falar das perdas fulgazes, destas que acontecem como um soluço súbito. Destas que depois do choque fica o medo. Medo de não existir mais, medo do que não faz mais sentido. Porque tudo um dia perde o sentido, pelo menos o lógico. As lembranças das perdas talvez sejam piores do que elas próprias. Falo sentada na primeira fileira da dor, lugar de onde se pode ver sua cor, sentir seu cheiro, de onde já se entende seus truques e sinais. Sim, a morte tem cara e tem cheiro e jeito. Tudo está tão solto num universo onde tantos já se foram e tantos ainda se vão. No meio de uma tarde meio gélida, meio sem sentido, chegam notícias que gelam o coração. Não tenho boa relação com as despedidas, principalmente as eternas.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Aos teus pés
Quando Diana nasceu, a vidente garantia à sua mãe que todos viveriam aos pés de sua filha. A mãe ficou orgulhosa, saiu contando para todo mundo que sua filha seria uma vitoriosa, teria uma vida de rainha, bem diferente da que foi a sua.
Ela fora um bebê lindo, loirinho de olhos azuis. Fofa, mesmo com aquelas unhinhas assim, tão estranhinhas. De tão tímida, muitos achavam que Diana era muda, motivo que a fez passar a infância sem amigos e a adolescência sem namorados. Ninguém queria se aproximar da “esquisitinha” como a chamavam, ou da menina que trocava os pés pelas mãos, segundo os vizinhos que preferiam nem mais chegar perto da garota.
Enquanto criança, o problema havia sido as constantes verminoses causadas pelo estranho tique, diagnosticado pela mãe como praga de uma vizinha. Até então, tudo foi considerado apenas uma peraltice, só que a adolescência chegou. Para ela, ir à primeira consulta no ginecologista foi tranqüilo. Difícil e torturante foi entrar pela primeira vez em um salão de beleza, empurrada pela mãe para comemorar os seus quinze anos. Afinal, já era uma mocinha e precisava desses caprichos. Deste dia Diana só lembrava estar folheando um exemplar antigo de “Contigo” e de como o nervoso de repente lhe tomara corpo e consciência. Depois os flashes de lembrança teimavam em reviver o modo com que se atirou ao chão, como um soldado em pose de ataque, ou de defesa. Ela bem que insistiu mais de uma vez, mas todas as tentativas foram fracassadas, acompanhadas pelos olhares de misericórdia das cabeleireiras. A cada vez Diana era arrastada pela mãe, que passava uma temporada enclausurada de vergonha depois de cada incidente.
Infelizes também eram suas visitas à sapataria. Entrava, olhava, passeava entre as botas 36 e os scarpins 42 e não resistia em dar uma espiada nos provadores, que refletiam aquelas pequenas e grandes figuras sempre tão concretas, tão sempre no chão, tão instigantes.
Mesmo tentando lutar contra os outros e consigo mesma, Diana resolver desistir. Já era impossível continuar na pequena vila do interior do Rio Grande do Sul tendo esta mania tão esquisita. Iria embora pra longe, bem longe, talvez algum médico da cidade grande lhe desse alguma resposta convincente para o seu mal.
Sua mãe chorava na rodoviária, mas sabia que era o melhor para a família. Também já não aguentava mais as risadas, os conselhos de internação e as chacotas dos familiares. Sua casa, antes muito freqüentada, agora era só silêncio e vergonha. Mal ouviu a última chamada tentando lembrar da oração de São Jorge, “dê pés para os meus inimigos, mas que eles nunca me alcancem. Eram pés ou asas?”. Estava confusa.
O barulho da paulicéia assustou Diana, que acertou tomar o ônibus e desembarcar em frente da pensão indicada por Cristiane, que foi a única que conseguiu manter o posto de melhor amiga por nunca ousar usar chinelos na sua frente. Os dias foram passando. Eles refletiam a cor dos prédios centenários por onde passava a caminho da escola onde lecionava. Eram todos iguais, até chegar o verão, época irritantemente perfeita para rasteirinhas, sandálias e chinelos. Ela não gostava da estação. Era nesta época que aumentava a curiosidade sobre a sua preferência por botas, de todos os estilos. Micose era a desculpa de sempre. A dor causada pelas biqueiras de couro batendo nas suas feridas não era maior do que o trauma e a vergonha das marcas do seu passado. Passava longe dos salões de beleza, sapatarias e de tudo o que lhe lembrasse seu destino esquisito e mal traçado.
Tudo foi em vão quando conheceu André, o garçom que lhe atendia diariamente no boteco onde almoçava. Algumas conversas e resolveram marcar o primeiro encontro, que para Diana tinha um peso muito maior do que para qualquer outro mortal. Era o medo da aprovação, da reprovação, da descoberta e da vergonha. E torcia, realmente torcia para que ele não fosse de sandália. Encarava qualquer outro sapato, até o tal do sapatênis, que achava brega demais.
Quando chegou, André achou a timidez de Diana uma graça. Adorava ver uma moça baixar os olhos e corar ao ver seu pretendente. Ao observar o rapaz, ela fuzilou os pés dele com os olhos e respirou aliviada quando se deparou com um sapato social. Achava lindo sapato Democrata, sinal que o garçom não ganhava assim tão mal.
E por semanas os almoços de Diana foram muito especiais. Mas chegou o grande dia, ou melhor, a grande noite. Levada por uma taça de vinho e pela baladinha de sua novela predileta,Diana foi se livrando do que a incomodava: blusa, saia, sutiã e sapato. Não, sapato não, gritou, deixando André meio atordoado, sem entender o motivo do desespero. Será que ainda era virgem? Tentando amenizar a situação André cobriu Diana de beijos, mas não teve vontade de continuar quando chegou nas unhas dos pés, ou na falta delas. Sentiu ânsia, mas continuou. Ele também se despiu: blusa, calça, cinto, cueca, sapatos e meia. Ela ficou muda, empalideceu ao ver um verdadeiro pé de anjo, perfumado e macio, com unhas tão perfeitas, cantinhos tão arredondados, uma delícia! Ela se olhou longamente no espelho do teto e então começou a lamber os dedos dos pés do amante, arrancando num só golpe a cutícula e parte da unha do polegar, que era sempre o mais apetitoso. O grito de André se mesclou ao de Diana, que agora gozava como nunca em sua vida.
Ela fora um bebê lindo, loirinho de olhos azuis. Fofa, mesmo com aquelas unhinhas assim, tão estranhinhas. De tão tímida, muitos achavam que Diana era muda, motivo que a fez passar a infância sem amigos e a adolescência sem namorados. Ninguém queria se aproximar da “esquisitinha” como a chamavam, ou da menina que trocava os pés pelas mãos, segundo os vizinhos que preferiam nem mais chegar perto da garota.
Enquanto criança, o problema havia sido as constantes verminoses causadas pelo estranho tique, diagnosticado pela mãe como praga de uma vizinha. Até então, tudo foi considerado apenas uma peraltice, só que a adolescência chegou. Para ela, ir à primeira consulta no ginecologista foi tranqüilo. Difícil e torturante foi entrar pela primeira vez em um salão de beleza, empurrada pela mãe para comemorar os seus quinze anos. Afinal, já era uma mocinha e precisava desses caprichos. Deste dia Diana só lembrava estar folheando um exemplar antigo de “Contigo” e de como o nervoso de repente lhe tomara corpo e consciência. Depois os flashes de lembrança teimavam em reviver o modo com que se atirou ao chão, como um soldado em pose de ataque, ou de defesa. Ela bem que insistiu mais de uma vez, mas todas as tentativas foram fracassadas, acompanhadas pelos olhares de misericórdia das cabeleireiras. A cada vez Diana era arrastada pela mãe, que passava uma temporada enclausurada de vergonha depois de cada incidente.
Infelizes também eram suas visitas à sapataria. Entrava, olhava, passeava entre as botas 36 e os scarpins 42 e não resistia em dar uma espiada nos provadores, que refletiam aquelas pequenas e grandes figuras sempre tão concretas, tão sempre no chão, tão instigantes.
Mesmo tentando lutar contra os outros e consigo mesma, Diana resolver desistir. Já era impossível continuar na pequena vila do interior do Rio Grande do Sul tendo esta mania tão esquisita. Iria embora pra longe, bem longe, talvez algum médico da cidade grande lhe desse alguma resposta convincente para o seu mal.
Sua mãe chorava na rodoviária, mas sabia que era o melhor para a família. Também já não aguentava mais as risadas, os conselhos de internação e as chacotas dos familiares. Sua casa, antes muito freqüentada, agora era só silêncio e vergonha. Mal ouviu a última chamada tentando lembrar da oração de São Jorge, “dê pés para os meus inimigos, mas que eles nunca me alcancem. Eram pés ou asas?”. Estava confusa.
O barulho da paulicéia assustou Diana, que acertou tomar o ônibus e desembarcar em frente da pensão indicada por Cristiane, que foi a única que conseguiu manter o posto de melhor amiga por nunca ousar usar chinelos na sua frente. Os dias foram passando. Eles refletiam a cor dos prédios centenários por onde passava a caminho da escola onde lecionava. Eram todos iguais, até chegar o verão, época irritantemente perfeita para rasteirinhas, sandálias e chinelos. Ela não gostava da estação. Era nesta época que aumentava a curiosidade sobre a sua preferência por botas, de todos os estilos. Micose era a desculpa de sempre. A dor causada pelas biqueiras de couro batendo nas suas feridas não era maior do que o trauma e a vergonha das marcas do seu passado. Passava longe dos salões de beleza, sapatarias e de tudo o que lhe lembrasse seu destino esquisito e mal traçado.
Tudo foi em vão quando conheceu André, o garçom que lhe atendia diariamente no boteco onde almoçava. Algumas conversas e resolveram marcar o primeiro encontro, que para Diana tinha um peso muito maior do que para qualquer outro mortal. Era o medo da aprovação, da reprovação, da descoberta e da vergonha. E torcia, realmente torcia para que ele não fosse de sandália. Encarava qualquer outro sapato, até o tal do sapatênis, que achava brega demais.
Quando chegou, André achou a timidez de Diana uma graça. Adorava ver uma moça baixar os olhos e corar ao ver seu pretendente. Ao observar o rapaz, ela fuzilou os pés dele com os olhos e respirou aliviada quando se deparou com um sapato social. Achava lindo sapato Democrata, sinal que o garçom não ganhava assim tão mal.
E por semanas os almoços de Diana foram muito especiais. Mas chegou o grande dia, ou melhor, a grande noite. Levada por uma taça de vinho e pela baladinha de sua novela predileta,Diana foi se livrando do que a incomodava: blusa, saia, sutiã e sapato. Não, sapato não, gritou, deixando André meio atordoado, sem entender o motivo do desespero. Será que ainda era virgem? Tentando amenizar a situação André cobriu Diana de beijos, mas não teve vontade de continuar quando chegou nas unhas dos pés, ou na falta delas. Sentiu ânsia, mas continuou. Ele também se despiu: blusa, calça, cinto, cueca, sapatos e meia. Ela ficou muda, empalideceu ao ver um verdadeiro pé de anjo, perfumado e macio, com unhas tão perfeitas, cantinhos tão arredondados, uma delícia! Ela se olhou longamente no espelho do teto e então começou a lamber os dedos dos pés do amante, arrancando num só golpe a cutícula e parte da unha do polegar, que era sempre o mais apetitoso. O grito de André se mesclou ao de Diana, que agora gozava como nunca em sua vida.
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Alvo
Tudo é gatilho: oportunidade, candidato ou suicídio.